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quinta-feira, 21 de dezembro de 2017

NATAL

BARBA-DE-VELHO - FOTO: WEB

Época de Natal é tempo de levitação das almas, que leves e saltitantes (mas não volúveis), passam a distribuir sorrisos, abraços e cumprimentos às outras. A minha alma foi buscar alegria natalina na lembrança da infância, e em recordações de sentimentos daquela época. Eu fiz a ela um pequeno poema, que para ser sentido por outras almas, há de ser entendido pelo intelecto, ao qual também fiz uns versinhos, e então, explico racionalmente os dados da situação de outrora.
Há duas datas que me marcam sobremaneira – Natal e Sexta-Feira Santa. Nasci de pais com descendências portuguesas, em praia de armação baleeira colonizada por portugueses continentais e açorianos. Pela cultura local, Natal era de hábito, cantorias de Ternos de Reis, em que músicos, ao som de rabeca, pandeiro e viola (às vezes gaitas), iam às casas para cantar, anunciando a chegada do Menino Jesus, nas noites que antecediam à data, surpreendendo a todos. Entre os músicos, havia um personagem cognominado de “velha” – um elemento do sexo masculino, vestido com roupa feminina a representar uma velhinha que pedia esmola (a contribuição financeira à equipe). E às crianças, que esperavam o presente do Bom Velhinho, a maior surpresa seria reservada pelos pais, para a manhã do dia de Natal ou seja, na madrugada desse dia, depositavam os presentes nos ninhos que elas faziam e deixavam à espera, mas os pais juravam que quem ali deixou presentes, foi o Papai Noel. Os ninhos eram cestos ornamentados com barbas-de-velho (plantas epífitas de caules filiformes) distribuídas, harmonicamente no fundo de vasilhas e enfeitadas com flores da época, como o jasmim-mimoso, de doce aroma. Digo vasilhas, porque esses ninhos eram improvisados em quaisquer vasilhames, que cada criança o adequaria – caixas, bacias, alguidares de barro, e outros; porém, o mais tradicional, seria em balaias (balaios rasos), confeccionadas em cipó e taquara.

Obs. Ficarei ausente, de férias, até meados de fevereiro. Desejo a todos um  Feliz Natal e Ano Novo repleto de saúde, muita luz, paz, amor e realizações pessoais e profissionais. Laerte.

VERSOS À ALMA

Natal – memória aguçada!
Barba-de-velho entre flores,
Lembranças de outros valores
No sono da madrugada.

Terno de Reis à calçada,
Violas, gaitas, tambores
Acompanhando os cantores
A velha – representada.

Armação tão portuguesa
Traz-me hoje a mente acesa
À tradição do menino.

Depois de tantos segredos,
Pegar no ninho os brinquedos,
Lembro, o quanto era divino...


VERSOS À MENTE

Noite de Natal, há encanto
Místico ou sobrenatural,
Inexplicável, real,
Mas incrível, entretanto!

Há um espírito santo
Sobrepondo-se ao trivial
Espírito tão pessoal
De cada ser, para espanto

Do sublime sentimento
Transmitido no advento
Da espera por Natal.

Assim, eu sinto esse Bento
Clima subliminar, que tento
Definir, e é surreal.

segunda-feira, 4 de dezembro de 2017

O PADRE QUE NÃO CONHECIA DEUS

Desculpem este texto meio longo, mas ao ver certo vaso de orquídea florir em dezembro não resisti em postar conto que escrevi há algum tempo.

Foto da web
Ele era um jovem recém-ordenado sacerdote da Igreja Católica Apostólica Romana, designado como professor de Ciências Naturais, a um colégio da minha cidade. Empolgou-se tanto pela beleza e natureza da mesma, a bela ilha catarinense, que se tornou como paleontólogo, um grande investigador dos mais remotos sítios locais, a coletar fósseis. Circulava em um jipe adaptado com molas reforçadas que elevavam a carroceria do veículo em relação ao rodado, dando certa altivez ao carro que se compatibilizava à altura avantajada e robustez do padre Müller, alemão de origem suíça.
As inúmeras investigações e coletas de materiais agigantaram-se tanto, ao longo de uns trinta anos, que ele criou um museu anexo ao colégio no qual trabalhava. Além do material científico que procurava, encontrava em suas andanças, magníficas orquídeas, que as catalogava, reunindo-as em coleção enorme.
Conheci o religioso como orquidófilo, por eu também ser um admirador de orquídeas e possuir algumas, já que o clima da ilha é propício ao cultivo da espécie, pois pouco cuidado exige. Basta deixá-la em local sombreado de alguma umidade, como ambiente necessário e suficiente para eternizar existência e reprodução dessas plantas, que o padre mantinha em enorme orquidário sob frondosas árvores seculares nas dependências do estabelecimento de ensino, onde seguidas vezes as fui visitar.
O tempo passou, Müller adoeceu, e por grande zelo tido às suas plantas, dificilmente sedia qualquer muda que fosse. Eu fascinava-me por diversos exemplares de suas raras espécies vistas apenas em seu orquidário, das quais, por insistência, ele prometeu-me ceder uma ou outra, à época do replantio.
Num fim de tarde, padre Baron, diretor do colégio e primo sanguíneo de Müller, telefonou-me avisando ter chegado o tempo do replantio de orquídeas; que eu fosse lá, a pedido do orquidófilo, pegar certas mudas que ele as me havia reservado; e à noitinha fui me haver com o padre Müller.
Bati à porta de seus aposentos e veio ele atender-me. Sem vê-lo há bastante tempo, estranhei a decrepitude de seu estado físico.  O homem forte, comparado a um touro selvagem ali esquálido, era um terneiro desmamado e trôpego. Como se fosse um balão inflado à plenitude e estourasse, agora remanescia apenas em arcabouço de suas formas. Ele constituía-se em uma sombra magra curvada, portando a mão esquerda sobre o alto-ventre ou levemente abaixo do abdome superior, que me estendia a mão direita retirada vagarosamente da maçaneta da porta, cumprimentando-me com voz plangente e rouca de cansaço. Imediatamente, perguntei-lhe o que o havia acontecido. Ele respondeu estar com câncer, e sua existência, quase em estado terminal; deixando-me chocado...
Ao entrar no quarto, senti um inconfundível cheiro de álcool, e conhecendo o professor como abstêmio, imaginei ser a imersão de algum pequeno animal em conservação aos seus estudos. Mas ele explicou-me estar a inalar vapor de álcool para aplacar sua intensa dor, obtido pelo auxílio de uma toalha embebida à saturação total de etanol. Logo percebi ter de desistir de minha segunda intenção, além da busca por mudas de orquídeas – que seria uma confissão superficial de meus pecados, tendo em vista que meu filho faria em breve a Primeira Eucaristia, e eu que há tempo não confessava, precisando tomar a hóstia consagrada junto a ele, pensei aproveitar aquela oportunidade a ver-me livre da obrigação cristã relegada. Já disposto a abandonar o segundo propósito, um impulso veio-me ao intento. Falei a ele querer confessar, mas não em confissão ortodoxa, e sim, numa simples conversa entre dois amigos. Em sua retidão prussiana respondeu-me que se eu quisesse confessar, apanharia a estola para o Sacramento, o que fez em um passo de mágica, alcançando, de algum lugar, uma faixa de cor gasta pelo tempo, em tecido brilhoso já carcomido, ostentando uma cruz em cada uma das extremidades que se tornavam um pouco mais largas, a qual trançou por detrás do pescoço. Em ato a se pôr de joelhos, eu o paralisei com uma negação.
E voltamos à conversa descontraída entre bons amigos que éramos, confidenciando a ele, que eu não me achava digno de confessar e tomar a Eucaristia por estar, depois de longo tempo na trilha de devoto cristão fervoroso, meio descrente de tudo, visto que até mesmo, chegava a duvidar da real existência Divina. Porque Deus, na minha visão, seria uma espécie de mão grande, um todo poderoso alienígena como um espírito feito de antimatéria, ou supostamente um grande general que após vencer todas as guerras do universo, reinava absoluto e soberano, já sem vontade para subjugar os vencidos, dada extraordinária superioridade diante dos medíocres ou míseros outros elementos das diversas galáxias, e dócil, procurava apenas ajudar os fracos, por isso seria a hora dele, quem sabe, agarrar-se a esse suposto deus.
Dito aquilo, o padre Müller emocionado profundamente, confessou-me ser padre há quarenta e tantos anos, mas desde menino procurava por uma visualização de Deus, para ilustrar a sua crença, sem conseguiu vislumbrar algo relativo ao que buscava. E que eu teria sido a ele, um Anjo, que veio e o apresentou um Deus concebido, pronto e acabado não em forma, porém conforme a alma que eu tinha, sendo a minha fé inabalável e extraordinária.
Sem querer, já sentados, segurei a mão esquerda do padre, beijei-a com ternura e choramos juntos. Terminada a forte emoção, nós nos ajoelhamos frontalmente. Ele persignou-se, beijou uma das pontas da estola e em seguida eu proferi, ao benzer-me: Padre dê-me a vossa bênção porque pequei. Os meus pecados são...
Duas semanas depois, de volta de uma viagem habitual de serviço, tive a notícia que o padre Müller tinha falecido e fui, na capela do colégio, à missa de sétimo dia, rezar por sua alma onde me senti junto de Deus e dele pela última vez, mas com uma das suas orquídeas (a mais rara), ainda converso de vez em quando, convencendo-a a florir maravilhosamente e ela sempre me atende, em dezembro, para encanto meu, da família e de amigos.